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Guerra Inglória

março 4, 2009 4 comentários

Tomou um gole da infusão de erva que acabara de comprar. O líquido seguiu queimando sua garganta e espalhou-se pelo corpo queimando, sempre. Mas não queimava mais do que a ânsia provocada pelos pensamentos eróticos que cultivou durante todo o dia depois que ele deu-lhe as instruções a respeito da vida vã. É, é vã mesmo – disse ele. Mas veja bem – prosseguiu olhando fixamente para seus lábios. Apesar de não deseja-la, seu pensamento voava enquanto sua retina ficava presa àqueles dois pedaços de carne sobrepostos e entreabertos – A vida é vã, mas a sua imaginação não, Nina. Ela não é fruto da realidade e nem precisa dela para que aconteça. O que não existe você pode dar vida. Naquele momento Nina o odiou. O odiou e quis matá-lo. E o decifrou. Viu que aquela conversinha besta que ele acabara de contar-lhe escondia a efusão de sua alma. Ali estava o seu segredo, e ela, num instante de iluminação o decodificou. Depois disso viu que aquele senhor que tantas vezes incitou-lhe admiração era na verdade um pedaço de carne tão inútil quanto sua inteligência. Ele era mesmo um homem de pensamentos distintos, mas agora Nina avaliava para que servia tanta distinção elocubratória. E desejou-o ardentemente. Desejou não apenas ter seus lábios sobrepostos ao dele. Desejou todo o seu corpo sobreposto ao dele. Todos os seus orifícios encaixados nele, como se no encaixar de seus corpos, no roçar de suas dermes, uma absorvendo o suor da outra, com suas almas derretendo pelo calor que o prazer lhes provoca, a banalidade da vida que Nina tentava insistentemente superar fosse sublimada. E lembrou da última conversa com aquele rapaz que sempre quis e nunca teve. Viver é comer – disse o rapaz entre risos. Como os gurus espirituais, falo eu agora por parábolas – continuou, agora às gargalhadas. Nina riu consentindo e dali em diante queria comê-lo todos os dias. Sempre teve ao seu redor pessoas que falavam de tudo e não diziam nada. Ela só precisava de pessoas que dissessem sim, sempre, para matar a fome, mas todos os seus pedidos eram negados. Queria o rapaz, queria o senhor, queria comê-los. Só tinha não como resposta. E derretia-se num líquido quente diariamente.

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