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Archive for outubro \31\UTC 2007

O serviço dos bravos

outubro 31, 2007 2 comentários

O meio ambiente reage pelos maus tratos de séculos de exploração desenfreada que tem como combustível primordial a necessidade de produção das sociedades capitalistas e em meio as discussões sobre aquecimento global e a prática de medidas simples e inteligentes que possam diminuir o impacto ambiental de nossas ações, uma cooperativa de catadores de material reciclável segue, como formiguinhas, fazendo o seu papel.

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Eu, fragmentos e a certeza de (quase) nada

outubro 28, 2007 3 comentários

Depois de aproximadamente trezentas páginas, nenhuma relação com o nosso passado – graças a Deus – porém, qualquer identificação pessoal e o desalento.

“e naquele relâmpago de lucidez teve consciência de que era incapaz de aguentar sobre a sua alma o peso esmagador de tanta coisa acontecida. Ferido pelas lanças mortais das tristezas próprias e alheias, admirou a impavidez da teia de aranha nas roseiras mortas, a perseverança do mato, a paciência do ar na radiante manhã de fevereiro.”

Só mais uma coisa. Se eu não terminar num palco como portagonista de uma tragicomédia, faço disso um samba e/ou um roteiro de um filme. E tenho dito.

Categorias:Coisas Minhas

Check List

outubro 17, 2007 1 comentário

1) Silêncio das línguas cansadas

2) Silêncio das línguas cansadas

3) Silêncio das línguas cansadas

4) Silêncio das línguas cansadas

5) Silêncio das línguas cansadas

6) Silêncio das línguas cansadas

7) Silêncio das línguas cansadas

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Um homem, um trabalho, um sonho

outubro 3, 2007 1 comentário

Sou de Feira de Santana  e uma das muitas coisas que me intrigaram quando passei a morar em Salvador foi ver pessoas vendendo toda espécie de coisas nos ônibus lotados e chacoalhantes. Quando os vendedores entravam e nos saudavam com um pedido de desculpa pelo incomodo da viagem eu lembrava de uma música do Rappa que diz “bom dia passageiros é o que lhes deseja a miséria S.A. que acabou de chegar…”, e de repente, em favor de uma crônica urbana, eu era um personagem de um videoclipe.
Outro dia a caminho de Brotas, entrou um vendedor de canetas anunciando que o seu produto era resistente e econômico. Deixou cair uma no chão. Pegou-a e rabiscou num caderno surrado para demonstrar que além de não falhar com a queda era perfumada. “Para você assinar documentos, fazer as provas da escola! Para escrever coisas bonitas para quem está distante”, persuadia.
Não resisti. Comprei a caneta e não resisti também ao desejo de bater um papo com aquele vendedor simpático que titubeava com o chacoalhar do ônibus. Não pude me furtar ao pensamento de que todos nós titubeamos no nosso trabalho e como isso é desconcertante, mas é natural. Ruim mesmo é ter relações de trabalho cambaleantes… 

Enquanto ele pegava a minha caneta na caixinha disse-lhe que queria conversar a respeito do seu trabalho, pois estava fazendo uma matéria sobre os baleiros nos ônibus. Ele topou prontamente e como combinado, no dia seguinte, as dez horas nos encontramos no ponto de ônibus entre o teatro Castro Alves e a praça 2 de Julho (aquela que faz referência a independência), no Campo Grande.

José Alcides Machado da Silva estava vendendo suas canetas enquanto me esperava. Perguntei-lhe se não vendia outros produtos, ele disse-me que estrategicamente, de acordo com o horário, é preciso mudar a mercadoria. “depois do almoço é bom pegar bala. Vende muito”. Nos sentamos na praça da independência. Resolvi confessar-lhe que era apenas uma estudante e percebi um certo desapontamento no seu semblante. Ele queria uma oportunidade de emprego. Foi isso que lhe motivou a aceitar o meu convite e enquanto eu tentava lhe explicar que aquela nossa conversa não sairia em nenhum grande jornal, no máximo ficaria exposta na internet, ele me interrompeu dizendo que o seu horóscopo havia lhe aconselhado para não avançar demais. “Fique firme onde está que de onde menos esperar aparecerá a oportunidade”, pressagiaram os astros.

Há dois anos ele vende canetas nos ônibus. Cadastrou-se na União dos Baleiros, sindicato que os apóia e para o qual os baleiros pagam R$ 5,00 por mês para terem direito ao colete verde que lhes dá livre acesso aos transportes coletivos.  Começou a trabalhar aos oito anos vendendo picolé. Aos 15 passou a vender chocolate. Vendeu verdura na feira, fita k7… Estudou até a 5ª série. Natural de  São Gonçalo dos Campos, perdeu os pais aos dois anos de idade. Passou a morar com os avós em Salvador. Casou-se pela primeira vez aos 22. Seu filho mais velho tem 8 anos. Voltou a casar-se por mais duas vezes e cada matrimônio lhe gerou outro rebento, o mais novo tem 3 meses, mesmo tempo que está solteiro – neste momento, ao fazer esta revelação, ele sorri – “deixei minha última esposa quando meu filho nasceu”, balbuciou como se estivesse constatando algo.

Ao longo dos seus trinta anos, José Alcides conseguiu construir uma casa de madeirite no Lobato.”Depois coloquei ela toda no bloco, mas perdi para minha primeira esposa”. Hoje ele mora com a irmã em Castelo Branco. “Queria ter oporunidade no mercado (de trabalho) para dar uma vida melhor para os meus filhos”, sonha. Em dias bons para as vendas como final de mês, por exemplo, ele consegue lucrar  algo em torno de R$ 30, oo que no final do mês, somando os dias bons e ruins,  lhe garantem pouco mais que um salário mínimo. O maior desejo de José Alcides hoje é “ter uma carteira de trabalho para comprar um terreno. Eu tenho uma vontade imensa de morar com meus filhos”. 

  

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